
Diante da imprevisibilidade dos EUA sob Trump, reduzir dependências críticas virou imperativo estratégico.
A atuação errática de Donald Trump produziu um efeito que vai muito além de disputas comerciais pontuais: governos ao redor do mundo estão sendo forçados a repensar o grau de dependência que mantêm em relação aos Estados Unidos. Governos europeus, latino-americanos e asiáticos, principalmente, discutem como reduzir vulnerabilidades estratégicas diante de um parceiro cada vez mais imprevisível. O caso da Alemanha, um dos países mais dependentes de Washington, é especialmente instrutivo — inclusive para o Brasil.
Em Berlim, onde sucessivos governos erraram ao tratar ameaças americanas, durante o primeiro mandato Trump, como um desvio temporário, ignorando os sinais de alerta daquele período —, a postura intimidatória de Trump em relação à Groenlândia teve um efeito catalisador. Ela reforçou uma percepção que já vinha se consolidando: a Alemanha se tornou excessivamente dependente dos Estados Unidos em áreas críticas para sua soberania. Isso é visível na defesa, com a recente encomenda de caças F-35 sem alternativa europeia equivalente; no espaço e nas comunicações, com a crescente dependência da rede Starlink; e, sobretudo, no setor digital. A economia alemã opera majoritariamente sobre infraestrutura controlada por empresas americanas, como Amazon, Microsoft e Google.
Como relata Julia Löhr do Frankfurter Allgemeine Zeitung, pesquisas recentes indicam que 51% das empresas alemãs se consideram fortemente dependentes dos EUA em tecnologias digitais, enquanto 60% afirmam confiar pouco ou nada em Washington — um nível de desconfiança que já se aproxima daquele associado à China. As dependências se estendem ainda às finanças e à energia: cartões de crédito, sistemas de pagamento e, após o corte do gás russo, a maioria do gás natural liquefeito importado pela Alemanha passou a vir dos Estados Unidos. Trata-se de uma nova vulnerabilidade estratégica, criada para substituir outra.