Bombardeios no Irã: a aposta mais arriscada de Trump (O Estado de S. Paulo)

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Operação sem objetivos claros expõe EUA a retaliações, instabilidade regional e pressão inflacionária.

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

A comparação com a invasão do Iraque em 2003 é inevitável: trata-se do que é conhecido nos EUA como “War of Choice”, uma “guerra escolhida”, não de autodefesa. Em 2003, Washington ao menos tentou obter, em vão, respaldo do Conselho de Segurança da ONU — algo que não fez agora. Trata-se, portanto, de mais uma clara violação da soberania iraniana e do direito internacional. Um argumento central da Casa Branca girou em torno da ameaça nuclear. No entanto, não há evidências de que o Irã tenha retomado um programa ativo de armas atômicas. Autoridades americanas chegaram a afirmar que Teerã não está enriquecendo urânio neste momento.

Diante desse cenário, vale recordar as advertências do cientista político Robert A. Pape, da Universidade de Chicago, especialista em campanhas de bombardeio. Pape destaca três lições históricas. Primeiro: campanhas aéreas, por si só, quase nunca resultam em uma mudança de regime favorável a quem ataca. Desde a Primeira Guerra Mundial, bombardeios foram capazes de destruir infraestrutura e alvos militares, mas raramente alteraram de forma decisiva o rumo político de um país. Segundo: agressões externas tendem a aproximar governo e sociedade. Mesmo quem critica ou rejeita seus líderes costuma reagir fechando fileiras quando o país é atacado. Terceiro: a retaliação geralmente não é imediata — e quase nunca é simétrica. Ela pode vir meses ou anos depois, por meio de aliados, ataques terroristas, ações cibernéticas ou escaladas regionais inesperadas.

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