
Enquanto a Rússia enfrenta sua pior crise de combustível em décadas, a Ucrânia se transforma em uma das maiores potências militares da Europa
Neste início de julho, colunas de fumaça voltaram a subir sobre refinarias e terminais de petróleo russos, de São Petersburgo a Omsk — esta última a mais de 2.400 quilômetros da linha de frente da guerra Rússia-Ucrânia. Atingindo alvos a distâncias cada vez mais longas e com precisão inédita, a frota de drones de Kiev mergulhou o sistema de abastecimento russo no pior colapso de que se tem notícia em gerações. Considerável parte do território — mais da metade das províncias do país — passou a conviver com filas, cotas e vendas de combustível limitadas ao consumidor comum, e o Kremlin viu-se obrigado a comprar gasolina da Índia e a barrar a exportação de diesel: uma humilhação para a potência petroleira. A popularidade de Vladimir Putin, embora ainda resista, atingiu seu mais baixo patamar desde fevereiro de 2022. Não por acaso, líderes ocidentais, como o primeiro-ministro canadense Mark Carney, passaram a dizer, sem rodeios, que a correnteza mudou de direção.
Seria imprudente, porém, confundir mudança de momentum com desfecho iminente. O presidente russo rejeita qualquer negociação e, longe de recuar, está escalando o conflito. Apesar dos gestos diplomáticos de Donald Trump, o qual insiste que a paz está “mais perto do que se imagina”, o objetivo de Putin segue sendo o controle integral e formal do Donbas, ainda que o avanço russo tenha praticamente estagnado numa frente de 1.200 quilômetros, onde a vantagem numérica de Moscou vem sendo neutralizada pelo enxame de drones ucranianos.
Como escreve Gideon Rachman, colunista do Financial Times, Putin enfrenta um dilema estratégico: entre suas alternativas de escalada, nenhuma é atraente. Pode lançar mais tropas ao “moedor de carne” da frente, mas as perdas superam a capacidade de reposição dos efetivos, e decretar uma convocação em massa cobraria um preço político que ele tem evitado pagar. Pode descarregar mais mísseis sobre áreas civis, à maneira do bombardeio que, na semana passada, tirou dezenas de vidas em Kiev; por mais cruel que seja, esse tipo de ataque dificilmente mudará o tabuleiro. Pode agitar o espectro nuclear, ameaça hoje bastante gasta, mas a China, que sustenta a economia russa, alerta o Kremlin contra esse caminho. Pode, ainda, ensaiar provocações no flanco báltico da Otan ou apostar na guerra híbrida, com sabotagens e atentados, sempre sob o risco de retaliação ocidental e de um vexame militar. Nenhuma dessas cartas reverte o quadro; todas apenas arrastam o conflito no tempo.